TREINO INTERVALADO

O ciclismo tem como uma das características a longa duração, com a maior parte do tempo concentrando-se na faixa de baixa a moderada intensidade e, portanto, altamente dependente da capacidade aeróbia do ciclista.

E essa afirmação vale tanto para speed quanto para mountain bike e também – dentro do ciclismo – para sprinters e passistas. Por isso é importante levar isso em consideração na hora de determinar o método de treinamento.

Muitas pessoas se equivocam ao pensar que neste tipo de modalidade sempre se deve treinar pelo método contínuo, passando muito tempo girando na bike mantendo a mesma intensidade. Este é um bom método para conseguir criar uma base aeróbia para iniciantes e pessoas com baixa aptidão para o exercício, o tão falado jargão “formar a carcaça”.

Porém, treinar significa provocar adaptação ao organismo, e isto somente se consegue se nós o estressarmos, ou seja, desafiá-lo a melhorar. Após um determinado tempo de prática, momento em que você já está competindo ou andando bem com seus companheiros, o treinamento contínuo já não é tão eficiente, proporcionando pouca ou nenhuma adaptação fisiológica, e consequentemente você sente ausência de aumento no seu desempenho.

Isto acontece porque seu organismo ficou eficiente em captar, transportar e fornecer oxigênio para o tipo de método que você pratica, e neste caso há ausência de hipoxemia, ou seja, não há queda necessária da concentração do oxigênio na corrente sanguínea durante o treino. Dessa forma, sem o estresse da capacidade aeróbia, sem adaptações.

MÉTODO INTERVALADO
Aumentar o volume, ou seja, a distância dos treinos não é a solução ideal se você já percorre uma boa quilometragem, pois vai melhorar a sua resistência ao exercício, mas não a intensidade com que você o realiza. Em outras palavras, você vai suportar ficar mais tempo em cima da bike, mas vai melhorar pouco ou nada sua velocidade média. Além disto, se você não é profissional e não vive de ciclismo, vai faltar tempo para treinar, pois cumprir treinos próximos a 100 quilômetros demanda tempo.

Diante de tudo isso, qual seria a solução? Afirmo para você que uma das mais importantes é a inclusão do método intervalado em seu treinamento.

Treinamento intervalado é um método em que o treino é dividido em estímulos e recuperações padronizadas adequadas a um determinado objetivo. Entender alguns termos é importante para prescrever e realizar o método. Os estímulos são denominados geralmente como trabalho que, por exemplo, é o “tiro” realizado em intensidade próxima ou acima do seu limiar anaeróbio.

A recuperação é denominada como pausa, e pode ser ativa (com exercício sempre em intensidade baixa) ou passiva (totalmente parado por um tempo determinado). Um conjunto de tiros e pausas forma uma série estabelecendo-se uma relação entre trabalho/pausa, que geralmente é de 1:2, 1:1 ou 2:1. Um treino intervalado pode ter várias séries, o que implica que também existam pausas entre séries, que também podem ser ativas ou passivas.

OS TIPOS DE TREINO
Além das variáveis, existem os tipos de treino intervalado. Existem diversas formas de divisão, o que não é senso comum entre os autores. Mas como o importante é entender a lógica, vou usar a terminologia adotada por Nikolai Volkov, professor russo que dedicou uma parte de seus estudos a este método.

O sprint intervalado, que também pode ser visto como intervalado intensivo de curtíssima duração, caracteriza-se por tiros máximos e muito curtos, da ordem de 5 a 30 segundos, e é dividido em séries de várias repetições (trabalho/pausa). Desenvolve a capacidade anaeróbia-alática, ou seja, melhora a sua capacidade de potência em ações curtas. Demanda um consumo alto de oxigênio e o mantém durante as séries, na ordem de seu VO2MAX, mas não ativa de forma expressiva o sistema anaeróbio-lático, mantendo baixas as concentrações lactato.

O intervalado de distâncias curtas, também chamado de intensivo, consiste em tiros de 30 a 90 segundos em intensidade alta, próxima à máxima. Demanda um consumo alto de oxigênio durante as séries, próximo ou igual ao VO2MAX, mas diferente do anterior, aumenta as concentrações lactato, demonstrando expressiva participação do metabolismo glicolítico. Contribui na obtenção de maiores reservas destas fontes de energia, além de aumentar a velocidade sustentada nos limiares aeróbio e anaeróbio, e melhorar a tolerância à acidose, a chamada tolerância ao lactato.

O intervalado em segmentos longos, também conhecido como extensivo, é formado por estímulos longos que vão de 2 a 8 minutos, em intensidade próxima ou pouco acima do limiar anaeróbio. Demanda também um consumo alto de oxigênio durante as séries e provoca adaptações aeróbias nos músculos, como aumento de concentração dos estoques de oxigênio e menor dependência de glicose em trabalhos intensos pela melhora da capacidade do organismo em utilizar gordura como fonte de energia.

Como o organismo trabalha na direção de proteger as reservas anaeróbias, apesar de o método utilizar estas fontes de energia, todos os estímulos provocam uma alta demanda e déficit de oxigênio durante as sessões de treinamento, e consequentemente geram a hipoxemia, proporcionando as adaptações aeróbias que estavam limitadas no método contínuo.

Isto não significa de você deve abandonar seus treinos contínuos, mas sim incluir treinos intervalados em sua periodização, destinando em torno de 15% da quilometragem total e uma frequência de duas a três vezes por semana. Para melhor distribuir e elaborar seus treinos intervalados de forma segura procure um bom preparador físico para tomar decisões perante a sua avaliação, extraindo assim o melhor de suas capacidades e desempenho.

CARGA INTERNA x EXTERNA

Vamos pensar na seguinte situação: você treina com um grupo de amigos, todos realizam o mesmo treino - no mesmo volume (distância, horas, etc...), intensidade (potência, velocidade, etc...) e freqüência (sessões por dia, dias por semana, etc...). Depois de algum tempo treinando, você começa a perceber que consegue realizar o mesmo treino que seus parceiros, mas que se adaptam de forma diferente, e passam a ter um maior ou menor rendimento em relação a você. Seria o pivô dessas diferenças a genética?

Com certeza ela tem grande influência, mas é incorreto pensar que não há nenhuma possibilidade de fazer com que você tenha um rendimento tão bom quanto o dele. Talvez você precise somente ajustar o seu treinamento.

O treinamento nada mais é que um conjunto de ações repetidas (os treinos) que visam um objetivo predeterminado: melhorar uma via metabólica ou uma capacidade física deficiente, por exemplo.

INTERNA X EXTERNA
Cada pessoa tem uma capacidade de se recuperar e adaptar a essas ações repetidas, e isto determina a maneira como são distribuídos os parâmetros de treinamento (volume, intensidade, freqüência, etc...). Neste contexto é que começamos a discutir a temática desta matéria. A maioria dos treinadores prescreve seus treinamentos sobre parâmetros de carga externa.

Carga externa é a carga de treinamento completada pelo atleta independente de suas características biológicas. Por exemplo, quando todos os atletas de uma equipe ou o pelotão completam um treino de 100 km a uma velocidade média de 38 km/h, todos realizaram a mesma carga externa.

Quando diversos atletas cumprem a mesma planilha, mesmo que treinando sozinho, isto também acontece. O problema em questão consiste no fato da adaptação ao treinamento ser determinado pela carga interna, e não pela externa.

Carga interna é a carga de estresse fisiológico e psicológico imposta ao organismo do atleta por uma relativa carga externa realizada. Dois atletas podem conseguir ter a mesma carga interna e a mesma adaptação ao treinamento por meio de cargas externas diferentes.

Realizar uma menor carga externa não significa que você está treinando menos que seu concorrente se as cargas internas de ambos forem iguais. Significa que você está respeitando o princípio da individualidade, tão citado nos livros de treinamento. Tentar treinar a mesma carga externa de outra pessoa sucessivas vezes para acompanhá-la pode levar você a diversos estímulos acima do ideal, e deste modo, em vez de melhorar, você pode entrar em um processo de overreaching.

Outro fator importante é a capacidade da carga interna permitir a monitoração de diferentes tipos de estímulo de treinamento. Por exemplo, pelo método que você monitora seus treinamentos atualmente saberia me dizer qual sessão de treino gera um estresse maior ao organismo: um treino contínuo de 100 km a 190 watts de potência ou um treino intervalado de 20 tiros de 250 metros a 380 watts com recuperações de 1 km a 150 watts? Se as distâncias se equivalem (50 km de intervalado e 50 de contínuo, por exemplo) fica fácil saber, mas se não há equivalência, a carga externa proporciona dificuldades para o monitoramento do impacto da sessão no organismo.

Você não precisa despender altos recursos financeiros para conseguir monitorar sua carga interna. Existem ferramentas de monitoração de treinamento válidas e de baixo custo (questionários de estresse, PSE da sessão, TRIMP, etc...) que permitem controlar adequadamente seu treino desde que sejam utilizadas da forma correta. Pergunte a seu treinador, pois se ele estiver atualizado, provavelmente ele saberá orientar você sobre algumas delas.

ALGUMAS DICAS
- Limite seus treinos em grupo a duas vezes na semana: não treine a semana inteira junto com a equipe (ou grupo de amigos), pois deste modo você pode estar superestimando ou subestimando sua carga interna.

- Procure obter uma prescrição de treinamento individualizado: seu treino é somente seu, e não para todos. Evite a “receita de bolo”, faça uma boa avaliação e procure um especialista que prescreva seu treinamento em cima dos seus próprios dados.

- Oscile as cargas internas de treinamento: cargas de mesma magnitude tendem a gerar monotonia de treinamento, prejudicando a recuperação e a adaptação positiva.

Treinando e monitorando sua periodização por meio de parâmetros de carga interna é muito mais provável que você consiga obter um rendimento tão bom ou melhor que de seus parceiros do que se você tentar copiar a carga externa deles. Isto porque respeitar a sua carga interna permitirá você extrair um pouco mais da sua capacidade de adaptação de forma adequada, proporcionando maior capacidade de rendimento esportivo.